Livro de Melquisedeque - Capitulo 39

Adão e Eva fogem da presença do Eterno

1

A noite já ia alta e as trevas pareciam envolver o triste casal em eternas sombras.

2

Nem sequer cogitavam em suas poucas palavras, sufocadas pela agonia, de um alvorecer.

3

Cabisbaixos, tateavam daqui para ali, na expectativa do juízo iminente, que os reduziria ao frio pó, esquecido sob aquelas trevas sem fim.

4

Quando surgiu repentinamente um brilho no céu, que ia aumentando à medida que se aproximava da Terra.

5

O casal estremeceu, pois sabia que era o Criador que vinha dar-lhes o castigo.

6

Vencidos pelo pânico, puseram-se a correr, distanciando-se do monte Sião, o lugar da vergonhosa queda.

7

Justamente para ali viram o Criador dirigir-Se.

8

Eles, que sempre corriam ao encontro do amoroso Pai, atraídos por Sua luz, fugiam agora desesperados em busca de lugares escuros, de densa floresta.

9

O Eterno, movido por infinito amor, passou a seguir os passos do casal fugitivo.

10

Enquanto caminhava, chorava ao lembrar os momentos felizes que havia passado junto a eles naquele paraíso.

11

Como tudo se transformara!

12

Seus filhos não conseguiam mais ver n'Ele um Pai de amor, mas alguém que, irado, buscava castigá-los.

13

Movido por forte anseio de abraçar Seus filhos humanos, Deus fez ecoar a voz numa indagação:

14

“Adão, onde vocês se encontram?”.

15

Sua voz, ao soar em meio às trevas, trazia consigo somente um eco vazio que falava de ingratidão e rebeldia.

16

Como desejava envolver o casal num ardoroso abraço, e com palavras de carinho confessar-lhe que Seu amor era o mesmo!

17

Ao ver Seus filhos fugindo de Sua presença, o Eterno foi tomado de grande dor.

18

Ante Seu olhar mareado de lágrimas estendia-se o futuro da raça humana.

19

Quantos, enganados por Satanás, fugiriam de Sua presença no decorrer da longa noite de pecado, julgando-No um Senhor tirano, que vive buscando falhas e fraquezas nos pecadores, a fim de castigá-los!

20

O Criador, todavia, não desistiria de procurá-los pelos vales sombrios do reino da morte, até conquistar um povo arrependido.

21

Adão e Eva, exaustos pela pressurosa fuga, esconderam-se por entre a folhagem de um pé de figueira.

22

Reconhecendo sua nudez procuraram fazer aventais cosendo aquelas folhas.

23

Vestidos assim julgaram poder livrar-se do sentimento de vergonha ante o Criador.

24

O Eterno, aproximando-Se do local onde o casal se escondia, perguntou:

25

“Adão, onde estão vocês?”.

26

Não podendo mais se ocultar de Deus, Adão ergueu-se juntamente com sua companheira e, cabisbaixos, apresentaram-se ao Criador, prostrando-se trêmulos a Seus pés.

27

Não conseguiram encará-Lo mais, devido ao senso de culpa.

28

O Criador, carinhosamente, tomou-os pelas mãos, erguendo-os do chão, e, com expressão de tristeza no semblante, perguntou-lhes:

29

“Por que vocês fugiram de Mim? Acaso comeram do fruto da árvore da ciência do bem e do mal?”.

30

Adão, todo trêmulo, com voz entrecortada de temor, respondeu:

31

“A mulher que me deste por companheira, ela deu-me o fruto e eu comi”.

32

Com esta resposta, Adão procurava desculpar-se, lançando a culpa sobre sua companheira.

33

Voltando-Se para Eva, o Eterno indagou-lhe:

34

“Por que você fez isso”?

35

Eva prontamente respondeu-Lhe:

36

“Aquela serpente me enganou e eu comi”.

37

Ambos não queriam reconhecer a culpa, lançando-a sobre outrem.

38

Em suma, atribuíam ao Criador a responsabilidade por todo o mal praticado e indagavam:

39

Por que concedera-lhes o livre-arbítrio? Por que criara a mulher? Por que criara a serpente?

40

Em silêncio, Deus observava Seus filhos que, tímidos e desconcertados, permaneciam diante de Si.

41

Com profunda tristeza, Ele previu que essa seria a experiência de incontáveis seres humanos no decorrer da história.

42

Quantos haveriam de se perder por não reconhecerem a própria culpa!

43

Quantos procurariam justificar-se, lançando seus erros sobre os outros e até mesmo sobre o Criador!

44

Com palavras brandas, o Eterno procurou fazê-los reconhecer sua culpa.

45

Somente reconhecendo sua necessidade, poderiam ser ajudados.

46

Olhando para as frágeis vestes tecidas por mãos pecadoras, disse ao casal:

47

“Filhos, essas vestes são insuficientes, logo secando se desfarão”.

48

Vocês precisam de vestes duradouras, que possam cobrir vossa nudez, livrando-vos da condenação.

49

Se vocês quiserem, Eu posso dar-lhes essa veste.

50

Ante as palavras bondosas do Criador, que traziam esperança, o casal prostrou-se arrependido, despindo-se de suas ilusórias vestes, símbolos de seu fracasso.

51

Almejavam agora as vestes da salvação, prometidas pelo divino Pai.