Livro de Melquisedeque - Capitulo 40

O arrependimento – O primeiro sacrifício

1

Depois de contemplar Seus filhos que, arrependidos, jaziam a Seus pés, o Eterno tomou-os carinhosamente pelas mãos e os levantou.

2

Alegrava-Se em poder revelar ao homem caído o plano da redenção.

3

Com ternura, Deus passou a descerrar-lhes primeiramente os amargos resultados de sua queda, dizendo:

4

“Filhos, vocês selaram o destino de toda a criação nas garras da morte”.

5

A desarmonia já permeia a natureza, procurando destruir nela todas as virtudes.

6

O abismo no qual vocês imergiram pela desobediência é por demais profundo para que possam ser alcançados pelo meu poderoso braço.

7

Assim, desligado da Fonte da Vida, não resta mais ao ser humano outra sorte além da morte.

8

Depois de proferir estas palavras que revelavam uma triste sorte, o Eterno convidou o casal a segui-Lo.

9

Cabisbaixos, Adão e Eva, em pranto, seguiram o Criador em Seus passos de justiça, que encaminhavam-nos ao lugar da vergonhosa queda, onde supunham encontrar o doloroso fim.

10

Nessa dolorosa caminhada soluçaram ao lembrar seu passado de glória desfeito pela ingratidão.

11

Como doía-lhes na alma a terrível expectativa de serem reduzidos, juntamente com a criação, a frias cinzas sob a escuridão daquela noite de pecado!

12

Enquanto caminhavam, contemplavam através das lágrimas as belezas adormecidas banhadas pela luz de Deus.

13

Viam os inocentes animais, que não tinham consciência da grande dor súbita, o casal se deteve vencido por intenso pranto; seus vacilantes passos os haviam levado para junto de um cordeiro, o animalzinho mais querido.

14

Seus olhinhos de meiguice haveria também de se apagar!

15

Enxugando-lhes as lágrimas, o Eterno ordenou-lhes tomar nos braços o inocente cordeiro.

16

Envolvendo-o junto ao peito, acompanharam silenciosamente os passos do Criador, até alcançarem o topo do monte Sião, lugar da vergonhosa queda.

17

Contemplando ali os restos dos avermelhados frutos, com ímpeto lhes veio à mente a lembrança da sentença divina:

18

“No dia em que dela comerdes, certamente morrereis”.

19

O terrível momento chegara.

20

O homem culpado deveria sorver o amargo cálice da morte, sucumbindo sem esperança.

21

Consciente de sua perdição, o casal percebeu, com horror, que as mãos que os trouxeram para a vida empunhavam agora um cutelo pontiagudo de pedra.

22

Trêmulos prostraram-se e esperaram pelo cumprimento da justa sentença.

23

Enquanto emudecidos pelo medo, Adão e Eva aguardavam o golpe que os reduziria a pó, sentiram o toque macio das mãos divinas que os erguiam para uma nova vida.

24

A condenação, contudo, haveria de recair sobre um Redentor.

25

Colocando nas mãos de Adão o cutelo, o Criador lhe disse:

26

O cordeiro morrerá em lugar de vocês.

27

Adão deveria sacrificá-lo.

28

Assustado ante a ordem de Deus, o casal, em pranto, pôs-se a clamar:

29

Senhor, o cordeirinho não, ele é inocente!

30

Com expressão de justiça, o Eterno acrescentou:

31

Se ele não morrer vocês não poderão ter as vestes das quais falei.

32

Ante a insistência do Criador, Adão todo tremulo, num esforço doloroso, cravou no peito do cordeirinho aquela aguda pedra.

33

O golpe foi fatal, e o animalzinho, vertendo seu precioso sangue, mergulhou nas trevas de uma noite sem fim.

34

Contemplando o cordeirinho inerte sobre a relva ensanguentada, o casal ergueu a voz e chorou.

35

Começavam a compreender a enormidade de sua tragédia.

36

Quão terrível era a morte!

37

Ela, em seu poder, apagara toda a luz dos olhos do inocente animal.

38

Inclinando-Se silenciosamente sobre o corpo inerte do cordeiro, o Eterno tirou-lhe a pele revestida de branca lã e com ela fez túnicas para cobrir a nudez do casal.

39

Após vesti-los perguntou-lhes com carinho:

40

Vocês entenderam o sentido de tudo isto?

41

Em profunda reflexão, por entre soluços de reconhecimento e gratidão, o casal exclamou:

42

Ele morreu em nosso lugar, para dar-nos suas vestes!

43

Adão e Eva, embora compreendessem aquela realidade física, estavam longe de entender o significado daquele acontecimento.

44

A eles o Criador revelaria o mistério do divino amor.