Livro de Melquisedeque - Capitulo 52

Deus prova a fé do casal

1

Naquela tarde do sexto dia, Deus submetia o ser humano a uma tremenda prova de fé.

2

Eles tinham diante de si o altar de pedras, construído conforme a ordem divina, mas não havia nenhuma ovelha para o sacrifício.

3

Em seu anseio, lembravam-se do Éden, onde havia muitos rebanhos.

4

Ao verem o sol tombar no horizonte, Adão e Eva passaram a clamar a Deus por socorro, pois sabiam que somente um milagre poderia providenciar-lhes, naquele derradeiro momento, um cordeiro para o sacrifício.

5

Aos olhos dos habitantes do Universo, o grande milagre pelo qual o ser humano clamava, já se processava à quase uma semana: Guiado pelo Criador, um imaculado cordeiro deixara o Éden e seguira os rastros do casal em sua caminhada para o exílio.

6

Deus prepara o cordeiro para o sacrifício

Em sua longa jornada, esse animalzinho teve de enfrentar muitos desafios e perigos, mas protegido e guiado pelo Eterno prosseguia em sua missão.

7

Quando as sombras do anoitecer começaram a envolver a colina, o casal que vivia tão dura prova de fé, discerniu um pontinho branco que saltitava no gramado vindo em direção deles.

8

À medida em que se aproximava, aquele vulto parecia falar de esperança, de vida e calor.

9

Ao verem que o grande milagre acontecera, correram ao encontro do cordeiro, envolvendo-o nos braços.

10

Ele estava fatigado, mas não descansaria: daria descanso.

11

Estava sedento, mas não beberia: daria de beber ao altar que clamava por sangue.

12

Aquele cordeiro tinha vontade de viver nos braços do homem, mas morreria, para que esse pudesse viver nos braços de Deus.

13

Era um perfeito simbolismo do Redentor que deixaria Sua glória, vindo em busca do pecador.

14

As trevas de mais uma noite baixaram lentamente envolvendo toda a natureza em sua prisão.

15

Sua força, porém, seria quebrada diante do ser humano, pelo brilho de um fogo especial, aceso pelas mãos do divino perdão sobre o corpo sem vida do inocente cordeiro.

16

Tudo estava preparado para o doloroso golpe: ato que apagaria daqueles olhinhos meigos a última estrela de vida, mergulhando-os na fria escuridão de uma eterna noite: escuridão que geraria luz; frio que geraria calor; morte que geraria vida - dons imerecidos; frutos do divino amor oferecidos às mãos pecadores, prestes a ferir.

17

Em meio à noite o altar clama; o homem triste exclama, enquanto o cordeiro, mudo, não reclama ao ser estendido para a morte.

18

As mãos que construíram o altar erguem-se agora, não para acariciar como outrora, mas para ferir, sangrando o preço do perdão.

19

Só um gesto, nada mais, e a estrela se apagará para sempre dos olhos inocentes, fazendo brilhar na face culpada a luz da salvação.

20

Adão, trêmulo hesita em compaixão.

21

No cordeirinho manso e submisso, pronto a morrer em seu lugar, vê o Salvador prometido.

22

Com o coração arrependido, num esforço doloroso, crava o cutelo de pedra no peito do animalzinho que perece em suas mãos sem sequer dar um gemido.

23

O poder da noite imediatamente é quebrado pelo brilho do fogo da aceitação.

24

Sua luz revela ao ser humano sua trágica condição:

25

Vendo as mãos manchadas pelo sangue inocente, o casal sente-se culpado por aquela morte.

26

Em pranto ajoelham-se ante o altar que já não lhes reclama sangue, mas oferece luz, aceitando o imerecido perdão.

27

Erguendo-se, o casal contempla demoradamente o corpo ferido do pobre cordeirinho, sem poder agradecer-lhe pela riqueza concedida em troca de seu tão rude golpe.

28

Banhados pela suave luz do sacrifício, Adão e sua companheira permanecem a meditar, até serem vencidos por um profundo sono.

29

Recostando-se ao solo coberto de relva macia adormecem docemente sob os cálidos raios do perdão, certos de que seu brilho e calor perdurariam até serem as trevas daquele sábado desvanecidas completamente pelo fulgurante sol.