Livro de Melquisedeque - Capitulo 68

Deus aparece para Caim

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O criador ouviu o clamor dos pais aflitos.

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Embora soubesse que Sua aparição dificilmente quebraria no coração do jovem Caim seu espírito rebelde, estava disposto a cumprir o pedido.

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Estenderia os braços amigos a Caim, procurando com amor conquistar-lhe o coração.

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Como conhecia os seus anseios e sonhos de aventura, facilmente poderia identificar-Se com ele, cativando-o, pois era também Alguém que sempre carregara no peito sonhos de aventura;

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Não fora a criação do Universo uma grande aventura?!

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Não fora o Seu sonho vê-lo cravejado de sóis fulgurantes, iluminando bilhões de mundos com o seu brilho?!

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Não era também o Seu maior sonho atravessar o vale da morte, em busca da conquista do Éden distante, prendendo para sempre o Sol em seu céu?!

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Tinham muita coisa em comum!

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Caim estava curioso naquela sexta-feira.

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Na face dos pais via ânimo e alegria, frutos de uma fé grandiosa.

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Incentivado por essa expressão de confiança, o jovem passou a ajudá-los nos preparativos para o santo sábado.

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O Sol finalmente esquivou-se rolando para o poente, deixando como de costume seu rastro de saudade que anunciava medo.

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Em meio às trevas, Caim discerniu o vulto branco do cordeiro sendo erguido para o altar pelas mãos do pai; esse incansável sacerdote que sempre estava implorando ao Criador pela salvação de seu amado filho.

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Com a mão erguida, Adão preparava-se para o golpe que poderia, quem sabe, quebrar no coração de Caim sua incredulidade, fazendo nascer num só momento a crença na salvação.

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De seus lábios escapa-se então o pedido da fé:

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Pai Eterno ouve o meu pedido; meu filho precisa de Ti!

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Somente um olhar Teu poderá conquistá-lo; Venha Senhor!

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Esta oração sincera caiu nos ouvidos daquele filho comovendo-o.

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Somente a prece já seria suficiente para convencê-lo da existência real de um Salvador.

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Enquanto enxuga as lágrimas da emoção, Caim estremece ao ouvir o ruído do golpe da morte.

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Tudo era solene naquele momento;

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Viria o Criador do mundo em resposta à oração do amor?!

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Como O encararia em sua incredulidade?!

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Um forte brilho envolveu logo toda a colina banhando também o vale oriental.

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Os olhos arregalados de Caim pousaram então nos olhos amáveis do Criador, que trazia na face um brilho superior ao do sol, mas não ofuscante.

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Contemplando-O com admiração, Caim exclamou:

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Ele é jovem como eu, e se parece com o Sol!

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Adão e Eva, comovidos pela grande saudade tinham vontade de saltar ao peito do Salvador e beijá-Lo, mas deixaram que Ele Se encontrasse primeiro com Caim.

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Com alegria viram o precioso filho envolvido nos braços do grande amigo, que era parecido com o seu astro.

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Depois de longo abraço, Deus abraçou e beijou também o querido casal, companheiros no sofrimento.

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Com alegria saíram a passear pelos jardins da colina. Ao centro iam o Criador e Caim, ladeados por Adão e sua companheira.

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Quanta felicidade experimentavam nesses passos!

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Estavam completos.

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Caim, conquistado pela afeição do Pai Eterno, mostrou-Lhe seus animais de estimação e seu pequeno jardim carregado de lindas flores.

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Como estava encantado por vê-los coloridos naquela noite desfeita pelo brilho do Criador, como sob a luz do dia!

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Parecia até mesmo que o Sol baixara a eles.

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Ao pensar no Sol, Caim como o amava muito, passou a falar sobre ele dizendo:

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Como ele é belo e bom!

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Quando ele vai-se embora, deixa em suas lágrimas de sangue um sentimento de tristeza e temor.

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Tudo desaparece em sua ausência: os animais, o jardim; até os passarinhos silenciam os seus cantos!

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Mas basta ele dizer que vai aparecer, tudo se enche de encanto;

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A natureza se desperta de mansinho, parecendo ainda temer as trevas, mas quando as vê fugir, fica alerta e canta;

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Os animais, os passarinhos, o jardim, tudo volta a viver feliz!

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Mas, esta felicidade sempre acaba!!!

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Após falar estas palavras, Caim fitando o Criador indagou curioso:

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Papai sempre diz que foi você quem criou o Sol. É verdade?

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Com um sorriso de sinceridade Deus respondeu-lhe que sim.

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Quando Você o fez no princípio, continuou Caim, ele já fugia para o poente?

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Ele nunca foge, respondeu o Eterno, é o mundo quem foge dele.

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Ele fica triste com essa ingratidão!

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Mas como? Perguntou Caim, contemplando curioso Sua face de luz.

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Com palavras carinhosas, Deus passou a contar-lhe a história de Lúcifer que, em sua ingratidão baniu de seus olhos e dos olhos de uma multidão de criaturas, o brilho de Sua face - o Verdadeiro Sol.

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Depois de assim agir, iludiu a muitos dizendo que foi o Sol quem fugiu deles.

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Continuou o Criador dizendo: Com sua astúcia, o anjo rebelde procurou arrastar o ser humano para as trevas, e conseguiu.

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O Sol naquele dia, chorou tantas lágrimas de sangue, que banhou todo o céu.

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Em seu último suspiro de luz, porém, ele prometeu ao mundo já tomado pelas trevas, voltar um dia a brilhar para sempre, enchendo todo o seu seio de vida.

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Após falar-lhe estas palavras, o Eterno fitando aquele jovem, com expressão de tristeza nos olhos concluiu dizendo:

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Hoje, o anjo rebelde promete a seus seguidores que irá com sua força deter o sol, mas ele jamais conseguirá realizar esse plano, pois não possui o laço que poderá detê-lo: o amor.

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Cabisbaixo, Caim ouviu dos lábios do Criador essa história de promessas, a qual já se cansara de ouvir de seus pais.

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Essa história não lhe dava prazer, pois mostrava uma noite longa de sacrifícios sobre o altar, e de um Salvador a perecer em dor.

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Em realidade, Caim não via razões para tudo isso.

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Por que não banir logo o sofrimento colorindo as trevas de luz?!

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Num esforço para conquistá-lo, o Eterno com muito amor fitou aquele jovem insatisfeito, e disse-lhe que, somente o sangue de Seu sacrifício poderia fazer o Sol para sempre brilhar, num reino de eterna felicidade e paz.

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Não havia outro caminho para essa conquista.

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Por isso deveria ser paciente, descansando-se sob o Seu cuidado.

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Após conversar por longo tempo com Caim, na tentativa de fazê-lo reconhecer sua necessidade de salvação, o Eterno voltando-Se para o casal, passou a consolá-los com a promessa do nascimento de outro filho.

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Mais trinta e seis sacrifícios seriam contados, e seus braços envolveriam o segundo filho.

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Nasceria também da dor, mas traria nos olhos o brilho e o consolo da salvação.

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O seu testemunho de fidelidade ficaria perpetuado por todas as gerações, no símbolo de um altar coberto de sangue.