Livro de Melquisedeque - Capitulo 74

Caim sente medo em sua jornada

1

O entardecer alcançou Caim já distante do lar, naquela floresta perigosa e hostil.

2

As trevas trouxeram ao seu coração temor;

3

Já não era aquele corajoso lutador que prometera vitória em todos os seus passos.

4

Lembrou-se de casa e teve arrependimento da maneira ingrata como havia tratado seus pais naquela manhã.

5

Ali no vale escuro, pela primeira vez ansiou pelo fogo do sacrifício;

6

Contudo, ele jamais acreditara na redenção simbolizada pela morte do cordeiro!

7

Ele cria no poder de sua vida que, aquecida pelo sol, crescia em força e esperança de um dia poder detê-lo sobre um reino de eterna paz e harmonia.

8

No lar, seus pais e irmãos não conseguiam dormir.

9

Tinham vontade de ir em busca do amado Caim, mas onde encontrá-lo?

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Lembravam dos demônios cruéis que invisíveis infestavam o vale, atormentando os animais que dia após dia iam tornando-se mais ferozes.

11

Em agonia prostraram-se aos pés do Criador invisível e clamaram fervorosamente pela sua proteção.

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Rogavam-Lhe que o trouxesse de volta para o lar, pois sem ele, tudo era tão triste.

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O Eterno amava profundamente a Caim e, jamais o deixaria sozinho naquela floresta.

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Em resposta as orações daquela família aflita, enviou Seus anjos para protegerem-no de todos os perigos.

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Caim, vencido pelas opressivas trevas da noite que traziam consigo os ventos do temor, tombou irresistente ao solo frio.

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Ali permaneceu até ter sua coragem e força restabelecidas pela luz do alvorecer.

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Animado pelo brilho da esperança continuou seus passos de aventura rumo ao berço do sol: paraíso com o qual sonhara desde sua infância.

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Seus pés conduziram-no naquele dia através de um vale intensamente marcado pela morte.

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Com espanto contemplava por todos os lados ossos secos e restos de animais devorados com ferocidade.

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Aos seus ouvidos atentos, chegavam uivos e gritos de feras ameaçadoras.

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Embora banhado pelo sol, Caim começou a ficar com medo.

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Imóvel, lembrou-se do lar, dos conselhos e rogos dos pais;

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Pensou nas constantes orações que faziam por ele;

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Estava certo de que não deixariam de clamar por sua segurança ali naquela perigosa floresta, apesar de sua ingratidão.

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Tomado de espanto, viu finalmente o sol lentamente caminhar para a sua morte diária.

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Se em sua presença tremia, o que lhe reservaria a escura noite?!

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Revivendo, contudo, os sonhos que tivera desde a infância, como um soldado que mesmo atingido por um golpe, se levanta num último esforço de vencer, Caim alimentou-se de ânimo;

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Venceria o medo, e conquistaria toda a selva, banindo dela todos os ossos secos e os sinais de morte.

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Revigorado pelos ilusórios planos, em passos firmes prosseguiu sua jornada.

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Pobre Caim! O primeiro de uma multidão que, escravizada pelos mesmos sonhos de progresso, caminharia para dentro da noite, julgando encontrar o berço de toda a luz.

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Caim encontra-se com o querubim guardador do Éden

Diante dos olhos de Caim que jamais podia imaginar que todo passo que dava o levava para mais longe daquele sol que almejava conquistar, brilhou distante por entre as ramagens uma fulgurante luz.

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Cheio de curiosidade apressou os passos, indagando silente:

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Mas como, se eu o vejo declinar?!

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Seria outro astro que em seu berço aguardava o momento de partida para aquele suplício diário?

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Com o coração pulsando forte pela emoção adiantou-se em seus passos, julgando poder naquele novo dia detê-lo em sua partida;

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Inauguraria assim um reino de luz, conquistado por sua força.

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Correndo para a luz, porém, a viu desvanecer quando já próxima;

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Seria vertigem? Não.

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Desvanecera simplesmente para revelar-se mais brilhante aos seus olhos.

40

Observando o brilho intenso, Caim ficou perplexo ao ver que procedia da face de um poderoso querubim protetor que, desde a queda de seus pais permanecera ali velando as divisas do Éden.

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Mudo, Caim contemplava a meiga face daquele anjo que, expressiva de amor, fazia renascer em seu coração emoções da infância.

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Sentia-se agora esquecido de sua missão, revivendo em lembrança o encontro que tivera com o Criador naquela noite de sacrifício.

43

O querubim era semelhante a Deus, tendo no rosto um brilho de sol.

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Estampando no semblante preocupação, o anjo depois de contemplá-lo demoradamente perguntou-lhe:

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O que busca meu filho?

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Recordando o seu esquecido ideal, Caim respondeu:

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Busco a fonte do dia, o berço do Sol.

48

O anjo continuou perguntando:

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O que o leva a procurá-lo com tanto anseio”.

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Caim respondeu:

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Eu sou amante de sua luz que me faz ver em cada dia o fruto do meu labor.

52

Admiro-o desde a minha infância, por isso trago no peito o ideal de um dia detê-lo sobre o céu.

53

O querubim contemplava-o penalizado, sem saber como convencê-lo daquela ilusão alimentada durante tantos anos.

54

Após um momento de silêncio, o anjo com ar de tristeza, procurando fazê-lo recordar as palavras que o Criador lhe dissera naquele encontro, perguntou:

55

Com que você irá detê-lo?

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Confiante, Caim ergueu os braços em resposta.

57

Não construíra enormes jardins com eles?!

58

O anjo, num esforço de fazê-lo entender que o sol é um símbolo do Salvador, disse-lhe:

59

Caim, nada poderá detê-lo a não ser o amor.

60

Quem ama, caminha na mesma direção.

61

Para onde você o vê caminhar todos os dias?

62

Não é para o ocidente?

63

Segue então os seus passos e jamais o verá chorar lágrimas de sangue.

64

Acompanha-o em sua caminhada e verá que o que você sempre chamou de morte, consiste num alegre alvorecer para um continente além, perdido nas trevas.

65

A afirmação do anjo fez Caim lembrar-se das últimas palavras ditas pelo Eterno naquela noite transformada em dia.

66

Ele dissera que somente o sangue de Seu sacrifício poderia fazer brilhar a luz que triunfaria para sempre sobre as trevas.

67

Contrariado, Caim baixara a cabeça, determinado a não segui-Lo nessa direção.

68

Abalado, Caim encontrava-se agora diante de uma séria decisão que mudaria o rumo de sua vida e de uma multidão que poderia segui-lo.

69

Mudo e a tremer permanecia prostrado aos pés do anjo, enquanto renhida luta travava-se em seu íntimo.

70

Desde a infância alimentara um ideal, caminhando na direção de um paraíso o qual julgava poder conquistar pela força.

71

Agora o anjo apontava-lhe um caminho oposto, de amor e sacrifício: o mesmo ensinado pelos pais e pelo Criador.

72

Arrependido, Caim desejou retornar para casa, mas o inimigo se opunha inspirando-lhe vergonha;

73

Como encararia sua família, a quem prometera vitória pela sua força, ao retornar de mãos vazias?!

74

Com o jovem Caim, prostrado aos seus pés, o anjo com voz de ternura instava:

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Filho volte ao lar!

76

Não há caminho de vitória além do amor.

77

Ele poderá ter espinhos e no trajeto um altar, mas é um caminho seguro, pois sempre leva o viajante aos braços de uma família amorosa que, com saudade espera o fruto de seu perdão.

78

Não será humilhante voltar;

79

Não é esse o caminho do sol?!

80

O caminho do orgulho é sempre desconhecido;

81

Em seu trajeto pode ter flores e a promessa de que não haverá altar, mas o seu fim é sempre dentro da noite, distante dos braços aquecidos pelo perdão.

82

Volte ao lar filho! Volte!

83

O anjo com seus amorosos conselhos conseguiu finalmente convencer Caim.

84

Ele estava resolvido a percorrer o caminho do amor, desfazendo os passos até ali movidos pelo egoísmo.

85

Aguardaria agora o sol para com ele seguir humildemente rumo ao altar que, não mais lhe falava de derrota, mas de triunfo sobre a morte.