Livro de Melquisedeque - Capitulo 78

Adão roga a Deus por Caim

1

Movido pela dor da saudade e pelo último raio de esperança em abraçar o seu filho, Adão ergueu o cutelo para matar o cordeiro.

2

De seus trêmulos lábios, escapa-se então uma aflitiva oração em favor de seu filho:

3

Senhor, hoje eu compreendo o quanto sofres com a rebeldia de teus filhos rebeldes, que trocaram o teu amor e o calor de uma família amorosa que vive no seio da luz, pelas trevas do vale, onde o desespero e a morte atraem com ilusões de vitória.

4

Neste momento minha mão está erguida para ferir esta inocente ovelha que, com seu sangue precioso alimentará o fogo da esperança em abraçar o meu filho que se encontra perdido.

5

Faça Senhor, com que o brilho desta chama possa alcançar o meu Caim onde ele se encontra, fazendo-o voltar ao lar arrependido.

6

Todas os súditos do Eterno com emoção contemplavam a comovente cena de significado tão grandioso.

7

Naquele pai tremente e aflito, pronto a sacrificar em favor do filho errante, viam o grande Pai que, para atrair Seus filhos humanos do vale da perdição, ofereceria o maior sacrifício.

8

Após sua angustiante oração, Adão imolou o cordeiro.

9

O fogo da esperança ergueu-se imediatamente em brilhante chama, expulsando as trevas que envolviam aquela colina.

10

Caim que movido pela alegria de ser sábado erguera a fronte nas trevas na expectativa de contemplar o brilho da vitória, ergueu as mãos aos céus agradecido quando viu surgir no escurecido horizonte a estrela da aceitação.

11

Cheio de ânimo prosseguiu em seus passos de fé.

12

Embora lhe fosse impossível enxergar e compreender todos os obstáculos que surgiam em seu caminho fazendo-o tropeçar, mantinha o olhar fixo no brilho do cordeiro imolado, avançando sempre, com a certeza da vitória.

13

Os passos de Caim conduziram-no finalmente para junto da colina, onde podia ver sua família reunida sob a luz do altar.

14

Com o coração pulsando forte pelo cansaço e pela emoção galgou em ligeiros passos a colina, detendo-se junto ao altar.

15

Sua família, com os olhos cerrados orava por ele.

16

Não conteve as lágrimas, ao ouvir seu pai clamar:

17

Senhor! Meu Caim, meu Caim!

18

Quando o envolverei em meus braços?!

19

Quisera voltar ao passado, quando com prazer tomava-o no colo.

20

Ele era a minha alegria, e esperava têlo sempre salvo junto a mim.

21

Mas oh, Senhor! Ele foi crescendo e se afastando, levado pelos seus sonhos de aventura.

22

E hoje, já é o quarto dia sem o nosso Caim!

23

Meu coração está partido pela sua ausência, e já não suporto viver sem ele!

24

Se for possível Senhor, traga de volta o nosso Caim, e que ele seja feliz ao Teu lado. Amém.

25

Terminada a oração, Adão abriu os olhos para contemplar a chama do perdão que poderia, quem sabe, atrair seu filho daquele vale sombrio.

26

Caim chega a sua casa, e todos ficam jubilosos de alegria

Seu olhar pousou de cheio em Caim que jazia prostrado junto ao altar.

27

Sem conter a alegria, Adão com um brado de vitória saltou para junto de seu filho, envolvendo-o em seus braços.

28

Toda a família o acompanhou nesse gesto carinhoso, festejando com risos e lágrimas de emoção, o retorno daquele filho e irmão amado.

29

Sob a luz do altar, todos assentaram-se finalmente, passando a ouvir com atenção a experiência passada por Caim naquela densa floresta.

30

Ele contou do medo que sentiu naquela primeira noite fora de casa; falou do vale da morte, onde viu tantos ossos de animais devorados com ferocidade; contou da luz que surgira ao entardecer, fazendo-o apressar seus passos julgando ser o surgimento de um sol.

31

Falou do brilhante anjo que o atraíra para as divisas do Éden, levando-o com seus conselhos e palavras de sabedoria e amor a uma mudança de rumo.

32

Contou de seu retorno, das lutas e tentações que teve de enfrentar a cada passo.

33

Concluiu contando da alegria que sentiu, ao ver naquela noite o surgimento do fogo sobre o altar, que semelhante a uma estrela, guiou os seus passos através daquele vale tomado pelas trevas.

34

Para a família, consolada pelo retorno de Caim, surgiu finalmente o alvorecer da alegre vitória, trazendo em sua brisa o aroma dos verdejantes prados edênicos cobertos de eternas flores.

35

Naquela manhã de sábado, uniram-se em cânticos de gratidão ao Criador, pela vida, pelo perdão, e pela certeza de que sua feliz união jamais seria maculada pelo pecado.