Livro de Melquisedeque - Capitulo 91

O Eterno recebe a oferta de Abel e a de Caim não por sua desobediência

1

O momento da prova chegara; todo o Universo estava atento.

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No coração de todos os filhos da Luz havia um misto de alegria e tristeza: alegria pela oferta de Abel, e tristeza pela confirmação de Caim no caminho da rebeldia.

3

Semelhante a seu pai, Abel ergueu com mãos trêmulas o cordeiro que não opunha resistência.

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Desde a infância se apegara a esses inocentes e puros animais, vendo neles um símbolo do Salvador.

5

Seu apego aos cordeirinhos, levara-o a tornar-se pastor.

6

Ele estremecia ante a ideia de ter de sacrificar aquele animalzinho de estimação, mas sabia que não haver outro caminho para se aproximar do Eterno.

7

Unicamente a sua morte poderia descerrar a chama da aceitação, da benção para o seu casamento.

8

Presenciara desde à infância o doloroso ato do sacrifício, mas agora, quando suas mãos deveriam desferir o golpe, hesitava.

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Tomado por profunda angústia ante seu dever, curvou a fronte em inconsolável pranto.

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Caim, movido pelo anseio da união que seguiria à chama da vitória, ergueu as mãos sobre as flores e frutos, invisíveis sobre aquele altar mergulhado na escuridão.

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Seguro da aprovação divina voltou os olhos para o céu, e contemplou o fulgor das estrelas.

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Alegrava-se por saber que em resposta à sua oferta, outra estrela surgiria para se unir àquelas com seu brilho.

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Adão com a mão erguida chorava em sua prece, lamentando a perdição de Caim.

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Por que rejeitara o cordeiro?!

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O que poderia mais ter feito, para fazê-lo compreender que o seu caminho era de pecado?!

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Certo de que esgotara todos os meios para ajudá-lo, Adão tombou a cabeça, após desferir o golpe mortal.

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A chama da aceitação imediatamente iluminou-lhe a face marcada pelo pranto.

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Consolado pelo brilho da chama que ardia sobre o altar de seu pai, Abel num esforço doloroso ergueu a mão portadora do cutelo da morte - aquele que em sua queda descerrar-lhes-ias a benção imerecida, após causar a dor.

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Enquanto trêmulo e pálido permanecia ainda hesitante em suas trevas, Caim do outro lado da chama de perdão acesa no altar de seu pai, clamava pela luz divina.

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Confiante de estar agradando o Criador com sua oferta, orava:

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Senhor, Criador e Rei Universal, Teu reino é de luz e alegria; Tu és como o sol que vitorioso percorre o céu, envolvendo toda a natureza com o seu manto de luz, fazendo-a despertar colorida, em pujante vida.

22

A Ti que com o Teu amor fazes brilhar o dia, unindo sob teus raios toda a vida, trago estas flores e frutos que são produtos dessa união.

23

Aceita-os como símbolos de nossa vitória, e faça brilhar sobre nosso altar a chama da eterna benção.

24

Abel, movido por uma profunda dor, cravou finalmente no peito do cordeiro aquele instrumento de morte, fazendo-o adormecer para sempre.

25

No impulso do golpe, prostrou-se ao solo onde agonizante demorou, refletindo no significado daquele sacrifício.

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Podia agora compreender a agonia que seu pai experimentava em todas aquelas noites de sacrifício.

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Caim que silente aguardava a resposta de sua prece, inquietou-se pela demora.

28

Sua inquietação tornou-se finalmente desespero, ao ver surgir além à chama da benção descendo sobre o altar de seu irmão.

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Tomado então por emoções de tristeza e ira bradou aos céus:

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Senhor, Senhor, não me ouves?! Não me respondes?!

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Seus rogos, porém, não trouxeram nenhuma resposta além de um eco vazio, perdido naquela noite.

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Vencido pela vergonha da tragédia, Caim prostrou-se, revolvendo-se em inconsolável pranto.

33

Satanás exultou ao testemunhar o desespero de Caim que, com gemidos maldizia o Criador por não haver se manifestado sobre o altar.

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Festejava por ter conseguido através do engano levar Caim novamente a manifestar diante do Universo sua rebeldia.

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Estava contente também em ver que Caim não estava sozinho em sua queda, mas tinha sua irmã a seguir-lhe os passos.

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Agora lutaria para mantê-los cativos sob o seu poder, tornando-os inimigos declarados do Eterno e de seus seguidores.

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O Criador, embora entristecido pela desobediência de Caim, alegrava-se em poder honrar diante do Universo aquele casal obediente que, no cordeiro imolado, via a promessa de um Redentor que no futuro nasceria para redenção de todos os pecadores que o aceitassem.

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Abel e sua companheira após consolarem-se da dor do rude golpe, banhados pelos raios aquecidos daquela chama, uniram-se em sublime ato de amor, esse que poderia gerar vida.