Livro de Melquisedeque - Capitulo 95

Caim planeja a morte de Abel

1

Mais uma noite surgiu, trazendo com suas trevas a insônia de uma sorte má, desumana e cruel, que agora era planejada por Caim.

2

Com o coração dominado pelo mal, dizia para si naquela noite, que era a primeira da semana:

3

Assim que raiar o dia, visitarei o lar de Abel.

4

Fingindo estar arrependido, pedirei dele um cordeiro para o meu altar.

5

Pedirei que ele me acompanhe até o rebanho, que pernoita em pastagens distantes;

6

Sei que ele de boa vontade me atenderá.

7

Quando em nossos passos, nos encontrarmos distantes de seu lar, eu o farei compreender a dor sentida pelos cordeiros.

8

Depois de matá-lo, o esconderei na floresta, longe do alcance dos olhos de sua companheira e de seus pais.

9

Comemorarei então o seu fim, unindo-me à minha companheira, como ele o fez após a morte do cordeiro.

10

Quando surgir o entardecer - esse que com seu arrebol não trará mais Abel para o seu lar - fugirei com minha irmã para o vale de onde regressei outrora, e de lá jamais voltarei a essa colina hostil, onde cordeiros perecem sem culpa.

11

Caminharemos assim até alcançarmos o berço da luz, que estende-se nas campinas do Éden.

12

Ali, longe dos rogos e conselhos desse meu intolerável pai, oferecerei ao Senhor da luz, cultos de flores e frutos: produtos que nascem sob seu brilho.

13

O sol em sua marcha oculta, anunciou no horizonte distante os sinais do amanhecer, num clarão que, refletido por uma nuvem, tornava-a parecida a um manto banhado em sangue.

14

Caim que trazia nos olhos as marcas da insônia ocultou à sua companheira o motivo que não o deixara dormir.

15

Sorriu simplesmente após ver surgir o Sol, e saiu prometendo regressar assim que sacrificasse no campo um cordeiro.

16

Achando estranha sua atitude, sua irmã perguntou-lhe o porquê de não oferecer a oferta sobre o altar.

17

Ele desculpou-se dizendo que manteria seu propósito jamais macular o seu altar com sangue de inocentes animais, mas cumpriria a vontade divina, sacrificando um cordeiro para alcançar a benção sobre o seu matrimônio, mas o faria distante, no campo.

18

Após cumprir esse compromisso, retornaria para ela, e seriam a partir de então uma só carne.

19

Abel alegrava-se naquela manhã ao lado de sua amada que, com um sorriso despertara como de um sonho, reclinada ao seu peito, onde pulsava um coração o qual não podia ela imaginar, enviaria naquele dia, num último esforço, a seiva da vida, para não mais retornar.

20

Abel seria como um cordeiro sobre o altar.

21

Depois de cingir-se com o instrumento da morte, Caim com passos movidos por uma decisão que não seria revogada, ladeou a casa de seus pais, aproximando-se do lar de Abel que, ainda aos pés do altar, permanecia com sua companheira, trocando juras de um amor eterno.

22

O olhar de ternura de Abel, sob o brilho do alvorecer trouxe para aquela jovem uma lembrança que a comoveu.

23

Acariciando sua face coberta pela barba macia qual lã, com os lábios trêmulos de emoção, sussurrou-lhe:

24

Querido, o seu olhar é para mim como o olhar de um cordeiro: me traz segurança, paz e esperança.

25

Sou grata por poder contemplar esses olhos em que brilha o amor!

26

Tudo o que eu quero, é que eles jamais se fechem para mim!

27

Com emoção Abel beijou sua companheira depois de ouvir suas palavras de carinho, e respondeu-lhe com um sorriso:

28

Querida, somente a morte os poderá fechar; mas mesmo a morte não poderá serrálos para sempre, serrá-los para sempre, pois no alvorecer eternal, eles se abrirão para você com um brilho que jamais será desfeito por essa sombra!

29

Abel dizia essas palavras, quando os passos de Caim se fizeram ouvir em aproximação.

30

Ao ouvirem-no chamar por Abel, saíram-lhe ao encontro, e ficaram felizes ao vêlo expressar sua decisão de sacrificar um cordeiro.

31

Como não possuía rebanho, desejava adquirir um de seu irmão.

32

Abel prontamente autorizou-o a tomar de seu rebanho, não somente uma ovelha, mas quantas precisasse, até que formasse o seu próprio rebanho.

33

Caim, com um sorriso agradeceu-lhe a dádiva, mas acrescentou:

34

Meu caro irmão, não aprecio abusar de sua bondade, mas eu gostaria imensamente que você me acompanhasse até o rebanho, pois as ovelhas certamente fugirão de mim que não sou pastor.

35

Abel consentiu de boa vontade em acompanhá-lo.

36

Abraçou então sua companheira, prometendo logo regressar - promessa que em dor veria desfazer-se no seu corpo ferido e em seus olhos a escurecer em sangue, semelhante ao triste arrebol que não o traria de volta para os braços de sua amada.

37

Abel alegrou-se ao saber que seu irmão tomara a decisão de sacrificar um cordeiro.

38

Enquanto caminhavam rumo ao rebanho, conversavam sobre a experiência do casamento: benção alcançada mediante o sangrento sacrifício.

39

Quando já estavam distantes de seus lares, avistaram o rebanho que pastava sob o sol matinal.

40

Abel adiantou-se em seus passos fazendo soar sua voz de pastor.

41

As ovelhas de uma só vez ergueram a cabeça, olhando na direção do bom pastor.

42

Caminhando em direção ao rebanho, Abel pediu a seu irmão que o aguardasse naquele lugar enquanto tomaria um cordeiro gordo para o seu altar.

43

Não ouvindo resposta de Caim, Abel olhou para traz, e surpreendeu-se ao ver que o semblante de Caim estava transtornado e seus olhos não expressavam gratidão, mas ira.

44

Caim mata Abel

Abel voltando-se para ele, perguntou-lhe o porquê de sua infelicidade.

45

Disse-lhe que Deus o amava, e visto que estava decidido a oferecer-Lhe um cordeiro, o seu casamento seria abençoado e desfrutariam paz na alma.

46

Em resposta às palavras amorosas de Abel, Caim disse-lhe friamente:

47

Você é o cordeiro que eu quero te sacrificar!

48

Depois de fazer-lhe esta cruel declaração, Caim tirou do interior de sua veste uma faca de pedra e avançou sobre o seu irmão que, pálido rogava-lhe, deferindo-lhe um profundo golpe na face.

49

O sangue imediatamente jorrou como de um cordeiro, fazendo Abel estremecer de medo.

50

Teria já chegado o dia de depor a vida?!

51

Enquanto com um gemido indagava, sentiu outro golpe que em sua violência o fez tombar ao solo.

52

Em sua mente atordoada pela dor, num último esforço de sua consciência, lembra-se daquelas juras de amor trocadas no alvorecer.

53

Em seu delírio de morte parecia ouvir sua amada dizer-lhe com os lábios trêmulos pela emoção:

54

Querido, o seu olhar é como o olhar de um cordeiro;

55

Tudo o que eu espero, é que eles jamais se fechem para mim!

56

Revive assim com esforço, seu último beijo acompanhado por sua promessa que a fez sorrir:

57

Somente a morte os poderá fechar; mas mesmo ela não os poderá serrar para sempre, pois no alvorecer do dia eternal eles se abrirão para você com um brilho que jamais será desfeito por essa sombra.

58

Após lembrar este juramento de amor, Abel vencido por um golpe fatal, mergulhou na inconsciente treva, seguro de que em breve essa sombra seria banida de seus olhos, no dia da ressurreição.

59

Caim esconde o corpo de Abel e foge

Caim somente cessou de golpear seu irmão, depois de certificar-se de que ele estava realmente sem vida.

60

Arrastou-o então até a floresta, deixando-o ali coberto com folhagens de capim.

61

Retornando para sua casa, Caim mostrou à sua companheira as marcas de sangue em suas mãos, e disse que atendera ao pedido divino, sacrificando um cordeiro.

62

Agora estavam livres para se unir sob a benção do Senhor.

63

Vencidos pela paixão carnal uniram-se então sob o brilho daquele sol que já não brilhava para Abel.

64

Quando o sol tingia o horizonte com seu arrebol, Caim lembrando-se de seu crime levantou-se sobressaltado, e disse para a sua companheira que em seu sacrifício, prometera ao Senhor da luz apresentar suas flores e frutos como uma oferta de gratidão pela benção alcançada.

65

Essa oferta deveria ser oferecida nas divisas do Éden por ocasião do alvorecer.

66

Precisavam, portanto, partir imediatamente.

67

Sem questionar a vontade de seu marido, aquela jovem reuniu apressadamente suas vestes e a oferta de gratidão, e partiram para dentro da noite.

68

Caim tinha pressa, pois sabia que a ausência de Abel naquela noite, traria a revelação de seu crime, o qual pretendia para sempre ocultar de sua esposa.