Livro de Melquisedeque - Capitulo 96

A esposa de Abel fica preocupada por não aparecer

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Banhada pela luz do arrebol, aquela jovem esposa sorria, certa de que abraçaria o seu Abel antes da noite.

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Contemplando o sol em seu declinar sobre as campinas de onde esperava vê-lo regressar, com saudade lembrava do alvorecer que em sua luz revelara os olhos de seu esposo, compassivos como os de um cordeiro.

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Emocionou-se ao lembrar do pedido que num sussurro lhe fizera:

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Tudo o que eu quero é que seus olhos jamais se fechem para mim.

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Lembra-se de sua resposta carinhosa:

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Querida, somente a morte poderá fechálos; mas mesmo essa não poderá cerrá-los para sempre, pois no alvorecer eternal eles se abrirão para você com um brilho que jamais será desfeito por essa sombra.

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Com essa lembrança, a jovem esposa viu enfim o sol mergulhar em seu túmulo de morte e vida, envolvendo com seu último clarão a campina vazia e seu coração que a pulsar com saudade, permaneceria também vazio.

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Franzindo a testa com preocupação, aquela jovem indagava:

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Por que não vem o meu amado?!

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Movida pelo anseio, correu até a casa de seus pais, onde imaginava o encontrar.

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Chamando-o, porém, não ouviu nenhuma resposta além do ruído dos passos de seus pais que, curiosos saíram-lhe ao encontro, indagando:

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Filha, você está procurando por Abel? Ele ainda não chegou?

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Não, respondeu a filha, já com lágrimas nos olhos, ele ainda não chegou!

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Embora preocupados aqueles pais abraçaram a filha procurando consolá-la, dizendo que ele logo estaria em seus braços.

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Em sua preocupação velada, perguntaram então à filha:

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Já faz tempo que ele saiu?

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Logo após despertarmos, no alvorecer - respondeu.

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A esta resposta, seguiu um silêncio de inquietantes indagações, enquanto juntos tentavam divisar em vão seu vulto sob aquele prado banhado pelo último rastro de luz.

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Suspirando profundo, Adão já suspeitando um possível mal, indagou de sua filha:

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Ele saiu sozinho?

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Soluçando ela respondeu:

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Caim nos despertou pela manhã, pedindo um cordeiro, e Abel saiu com ele.

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Preocupado, Adão saiu silencioso e dirigiu-se à casa de Caim.

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Chamando ali por ele, não ouviu nenhuma resposta.

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Rompeu então através das folhagens para o interior daquela cabana, onde leu no triste vazio um presságio doloroso de traição, confirmado numa veste manchada de sangue, apagando-se na penumbra.

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Vencido pela angústia, Adão caiu ao solo rompendo-se em pranto;

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Não querendo, contudo, revelar seu desespero à sua filha e esposa que precisavam de consolo para vencerem aquela triste noite, Adão num esforço imenso enxugou as lágrimas e firmou-se contra as emoções, ao ouvir os passos delas em aproximação.

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Do lado de fora, Eva e sua filha esperançosas de encontrarem ali Abel em visita a seu irmão, indagou:

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Eles estão aí papai?

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A voz esperançosa de sua filha em meio àquela noite, foi qual seta a sangrar seu coração, e temia responder sua pergunta.

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Finalmente caminhou na direção de sua filha, e vendo-a sofrer pela ausência de seu companheiro, procurou consolá-la dizendo:

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Filha confie no poder do Criador.

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Ele cuidará dele, e o trará no alvorecer!

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As palavras de consolo de Adão, contudo, longe de suavizarem o pranto daquela jovem, mergulhou-a em maior sofrimento, fazendo-a reviver em lembranças as promessas de Abel proferidas naquela manhã;

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Ele havia dito que se algum dia os seus olhos fossem apagados pela morte, eles se abririam para ela no alvorecer do sábado eterno.