Livro de Melquisedeque - Capitulo 97

Caim foge com sua companheira

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Caim e sua companheira em seus passos apressados de fuga, encontraram-se finalmente distantes da colina, mergulhados naquele vale de trevas que jamais entregaria de volta àqueles pais sofredores seus filhos rebeldes.

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Caim agora, ao lado de sua esposa, regozijava-se zombando das trevas, prometendo desfazê-la em breve com sua força.

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Vencidos pelo cansaço, tombaram ao solo, onde adormecidos ficaram até serem despertos pelo alvorecer.

4

Refeitos da fadiga, continuaram a jornada pelo caminho da aventura, em passos que faziam Caim se lembrar daquela caminhada interrompida pela incoerência.

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Quão tolo havia sido, pensava, em dar ouvido a voz do anjo!

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Se houvesse continuado em sua missão, possivelmente já teriam um paraíso banhado por uma eterna luz.

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Entardecia quando o casal fugitivo alcançou o vale de ossos, lugar em que Caim outrora sentira grande medo.

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Ao passar por aquele lugar, Caim estremeceu.

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Temia agora não as trevas que lentamente baixavam sobre o vale, mas a luz.

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Percebendo o seu temor, sua companheira perguntou-lhe:

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Você está temendo as trevas?

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Estou temendo a luz, respondeu Caim.

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Aquela que me fez caminhar rumo à morte.

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Não entendendo o que ele queria dizer, sua companheira insistiu para que ele esclarecesse o mistério.

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Com impaciência, Caim revelou que estavam nas divisas do Éden; lugar onde encontrou-se outrora com o anjo.

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Tendo dito isto, apontou para a esquerda acrescentando:

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Sigamos nesta direção, pois não quero encontrá-lo novamente.

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Tomando-a pelo braço, caminharam rápidos, aproveitando a última luminosidade do arrebol.

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O Eterno aparece para Caim

Quando enfim seus passos não podiam ser dados sem dificuldades por causa das trevas, contemplaram por entre as ramagens um brilho que, mais intenso que o do sol, permaneceu por um momento, desvanecendo-se.

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Imóvel ao lado de Caim, sua curiosa, esposa indagou:

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Você viu?

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Sim, respondeu Caim a tremer.

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O que será?

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À essa indagação, Caim não respondeu, simplesmente tomou-a pela mão e disse:

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Voltemos, fujamos dessa luz que nos poderá matar.

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Sem compreender o mistério, a jovem esposa o seguiu em passos rápidos que, aqui e acolá, eram impedidos por tropeções que os lançavam ao chão.

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Nessa fuga, porém, não conseguiram esquivar-se do brilho que surgiu-lhes mais forte diante dos olhos.

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Enquanto espantados tentavam num último esforço fugir noutra direção, foram detidos por uma forte mão que, desvendando os seus olhos, revelou diante deles a face do Eterno, mais brilhante que o sol.

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Não sabendo como encará-Lo em Sua luz de justiça, Caim temendo ser castigado pelo seu crime, curvou a cabeça entre as mãos.

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O Criador indagou-lhe então com seriedade:

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Onde está Abel o seu irmão?!

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Como insistisse nesta pergunta, Caim envergonhado por ter de confessar o seu terrível crime diante de sua companheira, de quem queria ocultar, respondeu simplesmente:

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Não sei. Sou eu o guardador de meu irmão?!

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Indignado por esta resposta de desprezo e irresponsabilidade, o Eterno disse-lhe com firmeza:

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Que fizeste Caim! A voz do sangue do seu irmão clama a mim desde a terra.

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A maldição e o sinal de Caim

Agora continuou Deus; maldito será nesta terra que recebeu o sangue inocente de seu irmão.

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Com voz cheia de tristeza, o Eterno continuou:

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Até este dia, o cobri de bênçãos, fazendo prosperar o seu labor na terra, dando-lhe prazer nesta realização; desde agora, já não poderei abençoá-lo, pois pela espontânea rebeldia você cerrou os canais desta benção.

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Por isso caminhará sempre vagabundo sobre esta terra amaldiçoada por sua culpa, fugitivo da luz desta face que sempre lhe sorriu perdão e salvação, até tombar vencido pela rebeldia dentro da eterna noite.

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Depois de revelar sua triste e irremediável situação, o Criador ergueu a voz e chorou amargamente.

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Duro Lhe era despedir para a morte aquele filho amado que, pela insistente rebeldia selara seu destino eterno.

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Caim todo trêmulo, tomado pelo medo e horror pela sua deplorável condição, com desespero clamou a Deus:

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Volta Senhor, volta! Conceda-me somente uma benção!

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Movido pelo Seu infinito amor, o Eterno tornou-se para Caim que trêmulo Lhe falou de seu temor:

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Tenho medo dos perigos da floresta, e daqueles que quererão no futuro procurar-me para vingar o sangue de meu irmão que derramei.

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O Criador teve compaixão de Caim, prometendo-lhe proteção.

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Como sinal dessa promessa, acariciou-lhe a face, fazendo-lhe desaparecer a abundante barba.

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Depois deste gesto de pai amoroso que acaricia o filho mesmo na eterna partida, Caim viu desaparecer diante de seus olhos o brilho daquela face banhada pelas lágrimas, produzidas por sua ingratidão.